Foi a primeira vez que os olhos deles se cruzaram. Ela brasileira, ele espanhol ...
- E aí, guria? Seja bem vinda!
- Guria? Você não é espanhol?
- Soy, pero tenho una namorada brasuca acá – respondeu com aquele portunhol mais sem vergonha, mas que ela tanto gostava.
Naquele momento ela só sabia achar graça cada vez que o ouvia falar. Nada além disso.
Foram se aproximando e ao término de cada dia de trabalho se sentavam com o grupo de amigos para compartilhar ‘una cerveza’.
Foi quando, no meio de um desses goles, os olhos deles voltaram a se cruzar. Porém, naquele momento, os amigos já não mais se reconheciam.
Preferiram seguir bebendo.
- Acho que vou embora.
- É, creo que también vou.
- Então vamos juntos.
Durante todo o caminho o silêncio não se fez presente. Não por terem muito que dizer um para o outro, mas por medo que a ausência de ruído os forçasse a agir.
- Me conta, brasileira, quais son tus planos acá?
- Acho que fico pelo menos 2 anos. Ainda tenho muito que fazer por aqui.
- Te admiro muito, brasileira. Você é bastante decidida.
- Pra algumas coisas sou, já outras ...
- Do que ta hablando?
- Não sabe mesmo do que estou falando?
- Pra ser sincero, acho que sei sim.
- Melhor mudarmos de assunto.
Aceleraram o passo. As mãos, que antes estavam abrigadas nos bolsos, agora pareciam desprotegidas; como se uma quisesse buscar a do outro. Porém, a cada pequena aproximação, o coração gelava e a mente os obrigava a repelir.
O sinal fechou.
Mais uma vez os olhos dele foram em busca dos dela. Respiraram fundo, e ele, sem perceber, deu um passo em direção à rua.
Passava um carro, e ela, sem muito tempo para pensar, gritou: Cuidado!
Assustado, ele olhou para trás e sorriu:
- Ta vendo o que você me faz passar, brasileira?
- Não entendi.
- Não mesmo?
- Não. Me explica?
- Eu estoy encantado por você, brasileira. Mas não sei lo que hacer.
- Não sei o que te dizer – respondeu rapidamente, antes que de sua boca saísse o pedido de um beijo.
- Onde você estaba há 2 anos atrás?
- No Brasil, aprendendo espanhol.
Pararam. Ela olhou para o lado e percebeu que o caminho da casa dele há muito havia ficado para trás.
- Você não mora pro outro lado?
- Moro, pero já vou virar logo ali.
- Nos vemos semana que vem?
- Claro.
E por mais que não quisessem, precisaram se despedir.
- Só um beijo – ela pensava.
- Só um beijo – ele pensava.
Optaram por um abraço e dois beijos ... um em cada canto da boca dela.
Cada um seguiu o seu caminho.
Após alguns passos ela olhou pra trás, e ele estava lá, parado, acompanhando o caminhar dela.
- Por que ele não vem atrás de mim?
- Por que ela não volta?
E no meio de tantas perguntas, a única alternativa que lhes restou foi sufocar a vontade, na tentativa de que os amigos pudessem se reconhecer quando seus olhos voltassem a se cruzar.
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